sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Entrevista com Lélia Almeida

O primeiro livro da Lélia Almeida que eu li foi “Querido Arthur”, que é de 1999, e de pronto já gostei. Desde então tenho acompanhado sua carreira através do blog Mujer de Palabras ou das mídias sociais. Em 2013 a autora lançou o seu mais recente romance, "O Amante Alemão", pelo Instituto Estadual do Livro.


Lélia também publicou outros três romances, "Antônia", "Senhora Sant'ana" e "Querido Arthur", além de sete livros de crônicas e ensaios. E em 2014, pela editora Confraria do Vento, lançou o livro de crônicas "Este outro mundo que esquecemos todos os dias".



Outro dia a convidei a responder algumas perguntas minhas, ao que ela topou prontamente. Assim, eis o nosso bate papo.

Dan Porto: Por que escrever?
Lélia Almeida: As pessoas que escrevem seguem o impulso de uma necessidade interior poderosa, essa é a maneira que elas têm de se expressar. Não sabem fazê-lo de outra maneira, as palavras são sua via de expressão e é através delas que imprimem a sua marca pessoal no mundo, é através delas que compreendem a si mesmas e aos outros.

Dan: Fale um pouco sobre a sua relação com o tarô.
Lélia: O Tarot [grafia empregada ou preferida pela autora] está na minha vida desde muito tempo. Sou apaixonada por aquele conjunto de lâminas que nos faz mergulhar num universo simbólico que fala de sentimentos, condutas, valores e de um conhecimento universal que atravessa a noite dos tempos. É também um espaço de escuta maravilhoso, de uma interlocução misteriosa que permite diálogos que só se dão ali, num espaço onde uma outra compreensão acontece. Além de ser um lugar de interação muito especial e diferenciado com as pessoas. E para mim que escrevo escutar aquelas histórias é infinitamente rico. Lembro de um personagem do Gabriel García Márquez, no “Crônica de uma morte muito anunciada” que diz que a vida se permite coincidências que se colocadas num romance seriam piegas e vulgares. São histórias inusitadas e maravilhosas que se escutam naquele espaço mágico.

Dan: "O Amante Alemão" ganhou o Prêmio Açorianos de 2013. Qual a importância de prêmios como esse e qual a influência na sua carreira?
Lélia: É claro que o prêmio abre portas. Mas eu não sou ingênua em relação a eles. Há uma série de prêmios que premia só um tipo de autores e de narrativa. Se fizer o autor algo diferenciado, experimentar na linguagem, inovar na estrutura, nem adianta se inscrever. É uma pena. Mas é geral, não é um fenômeno cultural brasileiro. Fiquei muito feliz com o prêmio, tinha gente qualificada concorrendo, que está na estrada há bastante tempo. Então, pessoalmente, foi maravilhoso. Durante os quase sete anos que fiquei esperando publicar o livro eu tinha muitas dúvidas em relação a ele. A estrutura que eu tinha proposto, as coisas que tinha tentado fazer. Daí o livro ganhou o edital do IEL e logo depois foi premiado. Comecei a ter o retorno dos leitores, convites para palestras. A crítica tem sido bastante generosa em relação ao romance. Então passei para um outro momento. E com o reconhecimento do prêmio, que foi muito positivo de muitas maneiras.

Dan: Como você conciliou a carreira acadêmica com a de escritora e como elas se tocam ou se permeiam?
Lélia: Estou fora da atividade acadêmica há quase uma década. Mas ter sido professora de teoria literária e leitora de literatura ajudou muito para compreender os meandros do ofício. Em muitos casos o conhecimento teórico pode ser um fator inibidor para quem quer escrever, conheço muita gente que vai fazer o curso de Letras porque quer escrever e nem sempre esta é uma boa ideia já que academia pode ser muito crítica e castradora nesse sentido. No meu caso as duas atividades dialogaram de uma forma muito produtiva. Mas o tipo de conhecimento produzido na academia, na minha área, não me interessa mais e está muito distante e divorciado do mundo, das pessoas, muito fechado, muito encastelado.

{ Mas o tipo de conhecimento produzido na academia, na minha área, não me interessa mais e está muito distante e divorciado do mundo, das pessoas, muito fechado, muito encastelado. }

Dan: O seu livro mais recente foi lançado pelo Instituto Estadual do Livro. Você já declarou em entrevista à Zero Hora que se sente contemplada com a iniciativa, mas se olharmos para a realidade dos autores nacionais, qual a sua leitura?
Lélia: A realidade dos autores nacionais é duríssima. E não só dos autores, mas dos artistas em geral. É difícil publicar, é difícil divulgar, distribuir, vender. Vivemos num país onde a cultura e a literatura não são importantes, a cultura não é um valor, se compararmos a outros países. A realidade dos autores argentinos, por exemplo, com quem convivo bastante é completamente diferente, na sociedade argentina uma pessoa que escreve é uma pessoa importante, valorizada. Aqui o tratamento que algumas editoras dão aos seus autores é quase indecente e isto é muito lamentável.

Dan: Tenho lido o seu blog com frequência e quero saber, qual o critério que você usa para selecionar os textos que são postados?
Lélia: A grande maioria dos meus textos é sobre o universo feminino e escrito desde um ponto de vista do cotidiano da vida das mulheres comuns. Estes textos nascem da minha observação da vida destas mulheres que é muito parecida com a minha e à medida que vou escrevendo vou publicando, não tem muitos critérios além destes, observar e escrever sobre o que me chama a atenção e que muitas vezes são fatos e percepções que se repetem na vida de todas nós.

Dan: Eu lembro que na nossa primeira conversa você me desejou força e coragem para escrever. Na sua opinião, no que devem focar os novos autores? O que é mais importante?
Lélia: Penso que é necessário uma espécie de sinceridade afetiva em relação ao ofício e também uma absoluta entrega ao que se faz e que a concentração tem que estar nestas coisas e em nada mais: escrever porque esta é uma necessidade humana inadiável de expressão pessoal e porque não sabemos e não queremos fazer outra coisa. E porque o mundo precisa de pessoas que sejam estetas, que embelezem o mundo, que é esta uma das razões que movem todos os artistas. Gosto muito do Osman Lins quando ele diz: (...) “Santo Afonso Henriques! Fazei de mim uma escritora. Nada de festivais, de júris em concursos (de beleza ou literários), de cargos em repartições chamadas culturais, de capelas, de frases de espírito. Livrai-me dos fascínios que tantos de nossos autores hoje têm pelo convívio com os ricos, pela adoção obrigatória de livros seus na área estudantil, pelas viagens com passagem e hotel pagos. Fazei-me orgulhosa de minha condição de pária e severa no meu obscuro trabalho de escrever”. (Dos papéis de J.M.E. in: A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins).

Lélia ainda sugeriu a leitura de um artigo seu, publicado no Portal Sul21. Clique aqui para ler.

Aqui também fica o link para o espaço da Lélia no Wall Street International, por onde a Lélia também peregrina.

4 comentários:

  1. Excelente entrevista! Parabéns Dan e Lélia!

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    1. Cris, muito obrigado. Fico feliz que tenha gostado. Um abraço.

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  2. Bacaníssima!

    "porque esta é uma necessidade humana inadiável de expressão pessoal e porque não sabemos e não queremos fazer outra coisa. E porque o mundo precisa de pessoas que sejam estetas, que embelezem o mundo, que é esta uma das razões que movem todos os artistas."

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    1. Marcia, bem vinda ao blog e obrigado por ler a entrevista. Um abraço.

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