terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Crônica de Natal

#croniquei

A minha melhor idade foi a infância. A magia das coisas resistia ao conhecimento que chegava lá no Faxinal dos Porto, no interior de Candelária, onde meus avós moravam naqueles anos oitenta e noventa. Outro dia, olhando as decorações de Natal pela cidade, me lembrei dos meus natais. A preparação começava bem antes do período que era tido como oficial, seis de dezembro a seis de janeiro. Vovó e eu íamos ao campo colher carqueja para fazer uma vassoura, cujo cabo era adaptado com um bambu. Assim tinha início a primeira tarefa para preparar a casa para o Natal, varrer toda a parte externa da construção e remover teias de aranha e o pó das paredes e janelas.

Essa é uma vassoura de carqueja, só falta o cabo.

Depois, ao longo dos dias, se seguiam a lavação do forro de madeira e a preparação das compotas de frutas, todas colhidas no pomar que ficava ao lado da casa e cujo chão era diariamente varrido. Afinal, no dia seis de dezembro a casa estava pronta para receber a decoração. Não havia possibilidade de fazê-la um dia antes ou um dia depois, o dia “certo” era o seis de dezembro! Então íamos nós todos armar a árvore de Natal. Púnhamos aquelas bolinhas de vidro que se quebravam às dezenas, era o vento ou o gato inventarem de passar por perto que a árvore ficaria desfavorecida! Minha vó tinha um presépio de papel que se espalhava pela casa, fixado às paredes, e era dividido em vários cartões, os quais, quando abertos, revelavam as figuras de anjos e tal.

A árvore era chamada de pinheirinho e ficava à sala de estar, mas o resto da casa também recebia arranjos, guirlandas e toalha de mesa especial. Só mais tarde é que chegaram as luzes, ou pisca-piscas. Após a decoração finalizada estava aberta a temporada natalina, e mais um período de ansiedade para mim (sempre!), que esperava pela data como o grande acontecimento do ano, o maior evento para o qual toda a casa fora preparada.

Até o dia vinte e quatro, além das compotas, ainda seriam providenciados os biscoitos, que eram produzidos em uma tarde especial onde minha mãe e minha vó cozinhavam e eu comia biscoitos recém-saídos do forno. Meu avô não tinha grande envolvimento com isso porque já havia sido picado pelo conhecimento e conhecia todas as verdades acerca dessa comemoração, mas eu ainda não sabia e me entregava completamente à magia do Natal.

Na escola, somada à ansiedade típica de fim de ano, aquela que antecedia a entrega dos boletins, havia a proximidade das férias e o amigo secreto. Mesmo que eu sempre ganhasse umas coisas bestas, era muito legal aquele ar de mistério que ficava no ar!

Conforme se aproximava a data, aumentava a ocupação com as comidas que seriam servidas. Eu sempre gostei de comer, então era o assunto que mais me interessava! Eram tortas, pavês, pudins, papos de anjo, frutas, bebidas e tudo mais. Em paralelo, havia também a faxina de fim de ano, onde armários eram esvaziados e se examinava item por item. Várias coisas eram doadas, como roupas, brinquedos e utensílios de cozinha.

Enfim, chegavam as férias: dormir até mais tarde, não ter compromisso com os deveres, assistir desenho animado até não aguentar mais, receber alguns parentes que moravam longe e o Natal. O dia vinte e quatro era tomado de uma energia que quase não cabia em mim. Logo mais seria hora de encontrar o papai noel, da ceia e do Terno de Reis. 

Eu tinha “medo de papai noel”. Isso era um consenso entre as crianças, eu acho, porque a gente sabia que era um personagem e ainda assim o temíamos. E as mães nos ameaçavam com aquela figura e se valiam dela para conter nossos arroubos infantis durante o ano todo. Mesmo que a fantasia fosse guardada em casa e manuseada, não havia jeito, eu temia o papai noel. Uma semana antes ou na noite de natal, não tenho certeza disso, íamos ao encontro de alguém vestido de papai noel, em geral eu sabia quem era, mas ficava gelado quando chamavam o meu nome. Ia até lá e me postava em frente daquela entidade, pegava o meu pacote, posava para uma fotografia na qual apareceria mais pálido do que nunca e corria de volta. O maior presente era escapar do papai noel. Será que havia algo de fetichista nisso?!

Em casa, era hora da ceia. Ai, como eu adorava a ceia! Comia por dois e provava todos os pratos, sempre deixando os melhores para o final. Mais tarde, quando já havíamos nos recolhido, ouvíamos a música ao longe. Era o Terno de Reis que se aproximava. Então levantávamos todos e íamos à sala esperar que se aproximassem do portão. Cantavam um pouco, meu avô abria a porta e os convidava a entrar. Eram pessoas desconhecidas, algo impensável nos dias de hoje. Tocavam e cantavam, se serviam de comida ou bebida e seguiam a estrada, sempre cantando. Eram luzes de som na madrugada.

Assim como aqueles “reis” cantores, o Natal era um tempo fora do tempo, uma mágica, uma bolha de felicidade, alegria e trégua. A magia se encerrava na manhã do dia seis de janeiro, quando a decoração era retirada. Enquanto as panelas fumegavam no fogão à lenha, como aquele vapor a magia natalina se dispersava no ar quente do verão. E se, de um modo, eu ficava triste, por outro, sabia que no próximo dezembro o meu coração voltaria a se alegrar.

E você, qual é a sua história de Natal?

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6 comentários:

  1. Olha amigo Dan,lendo atua cronica muito bonita,fiz uma viagem no tempo e era bem assim como tu descreveu,a unica diferença era que na quela época t.v era raridade,abs.

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    1. Enio, que felicidade te ver por aqui! Um abraço e obrigado pela leitura.

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  2. Muito bem Dan, uma linda viagem nos baús da memoria. Nas tuas palavras lembrei da minha queria avó, que nos deixou em 2008. Nem sempre ela era a anfitriã, pois minha família faz uma festa tradicional, com um também tradicional revezamento de casas, mas era sempre dona Adiles a mais empolgada, com suas imensas sacolas de presentes simples para todos os filhos, netos e bisnetos. Hoje, casado, não tenho mais certos hábitos, até porque não tenho preocupação com certas crenças; meu apartamento não tem luzes na sacada, muito menos uma arvore de Natal com uma estrela dourada ao topo simbolizando o nascimento de um tal menino Jesus, mas nos retratos antigos lembro com carinho de todas as boas festas natalinas de minha família, e de tantos momentos felizes com minha querida vó Diles. Obrigado por fazer eu tirar cinco minutos do meu dia para viajar nas tuas palavras. Tenha uma ótima semana.

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    1. Dener, que surpresa! Obrigado por passar aqui. Essas memórias são sempre um alento aos nossos corações. Agradeço também por compartilhar a tua história.

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  3. Linda memória. Eu lembro dos poucos Natais no sítio da minha avó, onde a família conseguia não brigar e passar uma noite em paz, todos juntos. Hoje já estão todos tão espalhados. Boa parte da minha infância foi naquele sítio nas férias enormes, pois o tempo parecia enorme. Hoje lembrando e ouvindo memórias não consigo deixar de pensar que este mundo já deixou um pouco de ser nosso, pois as coisas mudaram e o que enxergamos simplesmente não está mais lá.

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    1. Gracias pela presença, meu amigo. Incrível essa sua capacidade de se alinhar com o que estou a pensar. Deixo uma citação do Milton Hatoum: "Aquilo que existiu realmente não faz sentido. Porque a memória é uma recriação do passado".

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